Os mais significativos ensinamentos que já recebi não vieram de palestras de grandes intelectuais, nem de sermões ensaiados ou de conselhos sinceramente bem intencionados. Faria sentido se tivessem vindo daí, certamente. Mas não vieram. Os mais significativos e impactantes ensinamentos que já recebi vieram de experiências pessoais e também de conversas despretensiosas, casuais. Sabe aqueles momentos nos quais não existe nenhuma expectativa sobre o que será dito? Aqueles momentos nos quais se está apenas jogando conversa fora com alguém talvez nem tão culto assim? Momentos de se falar o que dá na telha, o que vem mesmo do coração… Então, esses são os momentos mágicos.

Outro dia vivi um desses momentos com uma senhora que conheço a décadas. Ela é um amor e é também muito inteligente, foi professora, diretora. Mas não é dos diplomas que a verdadeira sabedoria se origina. É da alma. E ela, ao contar um causo que despertaria a ira na maioria das pessoas, o fez com serenidade. De forma convincente e sorrindo, ela disse que não se abalou com a tal desagradável situação vivida pois “nessa vida, nenhum problema importa”.

Por alguma razão, eu me apeguei a essa frase e fiz questão de confirmar: “nenhum problema?”. E ela reforçou: “Não. Nenhum”. Fui embora com isso e, vira e mexe, volto a questionar essa afirmação. Nenhum problema importa nessa vida? Será? É estranho pensar nisso, pois, quanto mais eu penso, mais eu concordo. No entanto, sigo tendo problemas no meu dia a dia e não consigo por em prática a parte do “não me importar”. O que, por sua vez, é bem diferente de não agir, de não resolver ou de não ajudar a modificar a situação, ok? Deixemos esse debate suspenso por hora.

E eu, que sempre gostei de visitar cemitérios durante minhas viagens, tenho retornado a essa reflexão cada vez que vago por entre os túmulos dessa Irlanda. Talvez porque eu tenha tido alguns problemas aqui que me deixaram pra baixo, mas não deveriam, porque não importam. Talvez porque eu esteja apenas mais reflexiva ultimamente. Talvez porque eu esteja visitando muitos cemitérios e isso me faz pensar no que realmente importa nessa vida. Afinal, esse é um pensamento importante ao longo da nossa existência. Talvez o que importa na minha vida não seja o mesmo que importa na vida de outras pessoas. Não sei. Mas, segundo aquela senhora, uma coisa é certa: os problemas definitivamente não importam. Ou, ao menos, não deveriam.

É fácil perceber como ela tinha razão. Faça um teste. Quando você estiver nervoso, revoltado, de mal do mundo, vá dar uma voltinha no cemitério antes de qualquer coisa. Sério. Faça isso. Caminhe sem pressa por ali, leia algumas lápides, repare que alguns túmulos têm flores enquanto outros denunciam um abandono geral. Veja que, na sua idade, muita gente já tinha morrido. Repare que alguns nem tiveram a chance de ter um problema real na vida. Morreram tão jovens. Já outros, viveram tanto, tiveram uma vida longa e provavelmente inúmeros herdeiros. Mas, hoje, estão ali sob uma placa quebrada, com as pragas dominando seu espaço e sem nenhum vestígio de cuidado ou de amor.

O cemitério não é, para mim, um lugar de sofrimento. Ao invés disso, é um lugar de paz, de descanso e de inspiração. Sim, de inspiração. Sempre que visito um, sinto-me inspirada a refletir sobre o mundo, sobre a realidade, sobre a  história e sobre a vida. Com frequência, sinto-me inspirada a manisfestar mais intensamente o amor que sinto pelos outros e a valorizar mais os bons momentos.

Acho esse passeio extremamente enriquecedor. Eu nunca programo na agenda “visitar um cemitério”, não sou tão doida assim. Mas também nunca perco a oportunidade de gastar uns minutinhos ali quando, por coincidência, encontro um. E foi assim que aconteceu quando estive em Adare, uma vila turística na Irlanda. Durante meu passeio, encontrei um cemitério e decidi dar uma espiada. Como eu estava fazendo vlog nesse dia, incluí imagens do local no vídeo abaixo:

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