Eu já tinha viajado um tanto antes de encarar a experiência do intercâmbio aos 17. Eu já conhecia alguns países da Europa, já tinha ido aos Estados Unidos a turismo, sem contar as viagens nacionais que nos colocam em contato com culturas tão distintas que nem parece que somos todos brasileiros.

Viajar sempre foi uma paixão, mas descobri que você só conhece mesmo um destino depois que cria algum laço ali, alguma raiz. Você pode apreciar a beleza de um país, cidade ou vizinhança, mas é preciso mais do que isso – é preciso se contaminar com toda a sua energia – para de fato poder dizer que viveu aquilo.

É preciso viver um lugar em todas as suas complexidades para então conhecê-lo. E é por isso que cada vez mais pessoas se atraem pela ideia de morar um tempo em outro canto, aprender outro idioma, outra cultura, trabalhar, fazer parte daquilo tudo. É mesmo inexplicável, impagável e indispensável.

Digo mais, é potencialmente viciante. No meu caso, tornou-se um vício incurável. Tenho marcado na alma esse desejo constante de conhecer cada cantinho do planeta e entender como é a vida por lá. Me encanta o que é diferente… comidas, arte, paisagens, pessoas! Essa diversidade é, na minha opinião, a maior riqueza desse mundo.

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10 dicas preciosas para potencializar seu intercâmbio

E, quando conhecemos outras realidades, é quase impossível não estabelecer comparações com o lugar de onde viemos. No meu caso, a primeira experiência vivendo em outro país foi no Canadá. Que me desculpem os patriotas, mas fica difícil pensar em algo que o Brasil supere o Canadá. Óbvio que, apesar da corrupção e tudo mais, temos uma natureza incrível. Mas o Canadá também tem! As Rocky Mountains, por exemplo, são sensacionais, certamente uma das maiores belezas da crosta terrestre! Já escrevi vários textos sobre lá (clique aqui) e também tem vídeo no canal do Youtube. Se você ainda não conhece esse destino maravilhoso, não deixe de conferir:

Eu sei que alguém aí deve ter pensado no clima. É, dou o braço a torcer: o clima do Brasil é provavelmente melhor do que o do Canadá! Mesmo assim, há ressalvas a se fazer. Eu mesma não suporto dias de calor intenso, quando faz 32ºC ou mais, por exemplo. Juro que prefiro a neve! Porém, nenhuma das duas situações é o que considero ideal, ainda mais a -30ºC. 🙁

De qualquer forma, apesar das decepções vividas fora de casa (clique aqui para ler sobre isso), foram muitas as coisas que me agradaram durante minha estadia em Vancouver. Como é de se esperar, acostumei rápido com a vida boa. Era ótimo poder andar a pé pelas ruas em segurança a qualquer hora, poder tirar fotos nos locais turísticos sem o medo de ter minha câmera roubada. Achei incrível viver em um lugar onde todos os jardins são bem cuidados e onde ninguém joga lixo no chão. Confesso que levei um tempo para me educar e atravessar a rua apenas na faixa de pedestres, mas entendi que assim funciona melhor. Digamos que, além do curso de inglês, ganhei também um curso intensivo de boas maneiras e civilização. O problema é que, assim que ambos os cursos terminaram, voltei pro Brasil.

Desculpe se soo um tanto negativa quanto à realidade brasileira. Minha intenção não é a de alfinetar o patriotismo alheio. Apenas quero revelar a maneira como eu me senti no retorno do meu intercâmbio. As palavras grifadas são para frisar o caráter pessoal da experiência relatada. Para mim, o retorno do Canadá foi mesmo um evento traumático!

A surpreendente verdade sobre morar com uma host family

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Minha família foi me buscar em Guarulhos e, logo na saída do aeroporto, nos deparamos com uma favela imensa na beira da estrada. É triste! Claro que existem ricos e pobres em todo lugar, mas aqui isso é infinitamente mais preocupante do que no Canadá, por exemplo. Não acredito que alguém seja capaz de contestar isso… Parecia que eu tinha chegado em outro mundo, não em outro país.

Desde então, comecei a reparar como nunca nas diferenças de classes e a sofrer com isso. Parece que quando eu desconhecia outra realidade, a existência dos oprimidos era encarada como “natural”. Mas agora era diferente. Eu sabia que não era natural e que não era algo a se aceitar tão passivamente como geralmente fazemos. Comecei a ser violentamente tomada por compaixão e impotência a cada morador de rua que cruzava meu caminho. Não sei se esses sentimentos são nobres, imaturos, inúteis ou as três coisas. O que sei é que é perturbador sentir-se assim em um lugar onde tanta gente vive em condições desumanas.

Compreendi também que não são só os miseráveis as vítimas dessa hierarquia cruel, como tentam nos convencer. Podemos exercitar a indiferença quando avistamos um morador de rua cadavérico e malcheiroso na outra esquina, como se o problema não fosse nosso… mas e se o mesmo sujeito se pendurar na janela do nosso carro estacionado no semáforo, colocar um pedaço de vidro no nosso pescoço e levar nossa carteira embora? Num segundo, passamos de detentores do poder a impotentes. De repente, o problema da pobreza ou do crack se torna nosso! Não vem ao caso discutir quem é a vítima dessa história, simplesmente porque a resposta é simples: todos somos! Dito isso, fica claro que não há distinções… então, por que fingir que o sofrimento daquele drogado sem teto não é seu também? Por que não se importar quando ele está caído ao chão? Por que achar que você é imune a tal problema? Quanta besteira! Jamais serei capaz de compreender um pensamento tão raso.

Mas o fato é que essa minha tendência humanista não me ajuda muito na parte prática da coisa. Questionar é importante, refletir é fundamental, mas o buraco sempre está mais embaixo. Perto da minha faculdade havia uma região conhecida como “cracolândia”, onde os usuários de drogas pesadas se aglomeravam. Eu estudava à noite e morria de medo de ficar parada no sinal por ali. Na minha cidade existe uma lei que permite que os carros atravessem o farol vermelho após às 19h. Isso é para diminuir a criminalidade, pois Campinas já foi considerada uma das mais violentas do país. Ok, a lei ajuda, mas não é chocante a razão que a faz existir?

Outra vez, eu estava dirigindo por uma avenida à noite, em um horário com pouquíssimo movimento, e um homem apareceu no meio do asfalto fazendo gestos para eu parar o carro. Eu estava sozinha e logo fiquei apavorada. Reduzi a velocidade e acendi o farol alto, sinalizando para ele sair da frente. Mas ele não queria sair. Se meteu na reta no carro e começou a caminhar na minha direção. Pelo seu andar, pude notar que ele não estava alcoolizado nem ferido. Era um homem grande, forte, vestindo um macacão e determinado a vir até mim. Eu estava no meio da avenida e a qualquer momento um carro podia colidir com o meu, que já estava quase parado. Eu não sabia o que fazer, mas via o homem se aproximando. Decidi seguir reto. Não queria machucá-lo, mas ele não saía da frente. Dei mais sinal de luz, buzinei e me preocupei em dirigir numa velocidade que permitisse a ele desviar a tempo. Ele ficou na minha reta até o último segundo e só saiu porque eu realmente não parei. Seu corpo ainda raspou no meu retrovisor e eu fui para casa com o coração na boca.

Em pouco tempo no Brasil e em outra parte da cidade, um mendigo claramente drogado se pendurou na janela do meu carro, pediu dinheiro e, quando neguei, ele começou a me ameaçar. Fiquei em pânico, tremendo! Eu realmente não tinha grana, dei umas moedas quase sem valor e, dessa vez, me safei. Todas essas situações e tantas outras fizeram nascer no meu peito um sentimento de revolta. Uma mistura de inconformismo, raiva, impotência. Ou seja, uma combinação errada e perigosa de sentimentos. Então, fui até o supermercado mais próximo e comprei uma faca grande. Daquelas de cozinha, que usamos para cortar carnes. Era da Tramontina, com cabo de madeira, mas isso não tem relevância nenhuma. Comecei a andar com essa faca sobre o banco do passageiro. A intenção era que os pedintes vissem que eu estava “armada” e me respeitassem mais, não fossem tão insistentes, não me coagissem, não lavassem meu parabrisas quando eu dissesse que não queria. Foi uma medida desesperada e burra, claro. Eu sentia medo.

A coisa da faca durou pouco. Logo alguém me disse que, se a policia me parasse, eu estaria encrencada por estar portando uma “arma branca”. Eu nem sabia disso, pensava que uma faca que era vendida tão facilmente em qualquer canto não era um crime portar. Vivendo e aprendendo… deixei a faca em casa, mas o medo continuou me acompanhando. Sinceramente, me acompanha ainda. Depois disso, eu já fui assaltada 2 vezes a mão armada, já fui furtada outras vezes, já passei por poucas e boas. O que me mata é contar que tive uma arma na minha cabeça por causa de um maldito celular e alguém me dizer “ah, mas você não devia deixar a janela do veículo aberta nem às 8 da manhã” ou coisas do tipo. Really? 🙁

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As lições que aprendi quando deixei o Brasil

Como eu disse antes, não quero com esse papo questionar o amor de ninguém pelo Brasil. Cada pessoa tem sua história e, na minha, esse lance da violência pesa bastante. Eu sei que algumas pessoas não se sentem tão desprotegidas assim, mas meu passado me leva a isso, infelizmente.

A volta do Canadá também me deixou descontente em outros aspectos. Foram só alguns meses fora, mas minha vida mudou completamente. Muita coisa aconteceu e eu me sentia renovada! Porém, as coisas por aqui continuavam exatamente iguais e isso foi frustrante. Minhas preocupações e interesses haviam tomado rumos diferentes, mas ninguém parecia compreender. Os assuntos por aqui continuavam os mesmos, as preocupações dos meus antigos conhecidos também. Todos ainda frequentavam os mesmos lugares, tinham os mesmos receios e sonhos. Tudo isso é absolutamente normal, hoje eu sei, mas estou falando da minha versão adolescente, que havia recém descoberto a existência do mundo… ou seja, eu não tinha maturidade nem paciência o suficiente para entender a situação e passei a me incomodar com os outros. Não queria mais sair com minhas amigas, não queria falar com ninguém, não queria estar aqui. É, acho que alguns sintomas da depressão bateram em minha porta…

Para piorar, eu deixei pra trás um namorado e voltei para fazer cursinho. Coração partido e cérebro em curto-circuito! Quem já fez cursinho sabe da chatice.. sem falar da pressão! Nada parecia muito atrativo ao meu redor… eu não estava feliz. O tempo continuou correndo e algumas coisas foram se ajeitando… Felizmente, essas fases de baixo astral não são eternas, né? De qualquer forma, eu queria ter uma coisa bacana pra dizer no fim desse texto. Algo como: “os incômodos passaram, logo as coisas melhoraram e hoje estou radiante por estar aqui”, mas seria mentira. Algumas coisas para as quais despertei nunca mais passarão desapercebidas por mim, como aquele lance da sensibilização com os em condições desfavoráveis. Quanto ao medo da violência, ele é muitas vezes colocado de lado, simplesmente porque a gente precisa fazer vista grossa ou não dá pra levar a vida. É nossa triste realidade. Vira e mexa a gente toma um novo susto aqui e acolá, mas finge que é normal. Aquela revolta se remexe no meu estômago, mas engulo.

Minha realidade não é ruim. Poderia até dizer que é ótima! Sei que tenho muito a agradecer e o faço, acreditem. Amo tudo o que tenho, mas não me iludo e é só. Amo o que tenho e espero sempre poder ver melhorias! Eu não quero que o Brasil exploda. Eu quero que o mundo inteiro seja mais digno, justo, seguro, acolhedor. Eu não quero que ninguém concorde comigo que nosso país nos deixa inseguros se não sentem isso. Na verdade, eu gostaria que ninguém se sentisse como eu me senti ao voltar pra cá. Provavelmente são as pessoas que discordam de mim e que têm uma visão mais positiva sobre essa terra que terão mais chances de fazer a diferença aqui. Eu tenho plena consciência de que não estou sempre certa… e isso é maravilhoso! 🙂

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