Ontem foi uma típica noite de verão em São Francisco: gelada e meio entediante. Eu estava tomando um chope artesanal nada mais do que razoável em um bar da cidade quando uma cena perturbou meus pensamentos e sentimentos mais íntimos. A música tocava baixinho e as pessoas estavam com suas turmas, todos sentados, não haviam interações entre estranhos. O cardápio do bar era pouco convidativo, pedi apenas uma chata porção de fritas. A luz do ambiente era muito clara e o chope logo começou a me empapuçar. As pessoas pareciam bem discretas, elegantes, ponderadas. Estava tudo assim, sob controle e sem muita emoção, até que algo totalmente inusitado aconteceu: uma moradora de rua muito doidona peitou o segurança, invadiu o bar aos gritos e sentou na mesa das três loiras que estavam na minha frente.

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Não sei direito como tudo aconteceu. Foi muito rápido e logo a mendiga estava ali, sentada com as loiras maquiadas, enrolada no seu cobertor surrado e segurando um copo de papel vazio. O segurança estava bem ao seu lado, pedindo insistentemente que ela saísse, mas cada pedido só conseguia deixá-la mais convicta de que queria ficar. Logo o garçom também se aproximou e reforçou as falas do segurança. “Você precisa sair”, diziam ambos. A maltrapilha, revoltada da vida e com as nádegas coladas no assento, gritava de volta: “não saio! Podem chamar a polícia”.

Ela parecia muito esclarecida quanto aos direitos que tinha, ou que deveria ter. Em princípio, o bar é um lugar público e ela queria apenas estar ali como tantas outras pessoas estavam. Quão desumano e insensível é permitir a entrada de uns e barrar outros simplesmente por sua falta de sorte na vida, por suas roupas ou aparência? Quem sabe a mendiga até tivesse uns trocos para uma cerveja? Nunca saberemos. Por outro lado, pode ser justo com os clientes não permitir a entrada de pessoas desequilibradas ou extremamente malcheirosas. As loiras que o digam! Se ajeitaram em seus assentos, mantendo a maior distância possível da desajustada e gerenciando a situação de forma a ignorar a sua presença. Continuaram conversando sobre seja lá o que estavam falando e se esforçaram para não trocar olhares com a moradora de rua. Afinal, era responsabilidade dos funcionários resolver aquele transtorno e elas demonstravam sua educação não aumentando o caos. Dito e feito, logo o garçom providenciou uma mesa bem distante para elas se transferirem.

Não vi mais as loiras, mas a mendiga permaneceu na minha frente por mais algum tempo. O gerente também se aproximou e ele parecia mais sensato. Sua abordagem era mais amistosa, sua expressões faciais menos carrancudas. Ele conversou com a mulher e logo ela não sentia mais a necessidade de gritar. Percebi que ele estava quase “amansando a fera”, quando o garçom voltou, se posicionou em frente à mesa e afirmou com voz firme: “Você tem que sair”. Sem obter nenhum resultado, ele repetiu a fala. A indigente o ignorou, mas eu pressenti que isso não terminaria bem. Cutuquei meu namorado e cochichei: “esse garçom não sabe lidar com a situação”. Meu namorado só escuta o que eu digo na segunda vez, então, como sempre, ele soltou um: “hãn?”. Não deu tempo de explicar de novo. Enquanto eu cochichava, o garçom ficou mais rústico em sua abordagem e levantou a voz: “saia! Saia!”. A mulher voltou a gritar, ela se sentia atacada, uma fera ferida. Foi um furdunço, mas quem salvou a cena foi mesmo o gerente, que conseguiu finalmente convencer a doida a ir embora.

Ela se foi e, um pouco mais tarde, o garçom veio até nós pedir desculpas pelo ocorrido. Ele disse que sentia muito e eu pensei: “eu também sinto. Poderia ser eu a mendiga”. Mas eu só respondi que estava tudo bem. Ele estava dizendo outra coisa e eu não ia entrar no mérito. Ele estava dizendo que sente muito pelo fato de nós clientes termos sido incomodados. Ele provavelmente não sente nada pela mulher que vive naquela situação miserável. Se sentisse, teria demonstrado um pouco mais de compaixão ao pedir que ela fosse embora.

Claro que eu entendo que, de um jeito ou de outro, a mendiga tinha que sair do bar. Eu sei que infelizmente não vivemos em um mundo no qual alguém ofereceria uma xícara de chá para ela, um chuveiro quente e um lugar para dormir. Na verdade, achei até bem bacana a forma como a equipe de funcionários trabalhou, ninguém tocou na mulher, conversaram com ela e se preocuparam em convencê-la a se retirar. Foram bem sucedidos e evitaram problemas maiores. Mas a verdade é que essas coisas me tocam por dentro, sabe?

Voltemos às loiras. Ignoraram alguém que se sentou na sua mesa. Saíram dali como se a mendiga transmitisse uma doença letal pelo olhar. Pensando bem, é pior do que isso, pois mendigos não são tratados como doentes e sim como doenças propriamente ditas. E é assim mesmo que são encarados, como a doença da sociedade. Aos indigentes se associam todos os males pensáveis: drogas, sujeira, miséria, doença, fracasso, tristeza. A maltrapilha estava arisca justamente por se sentir tão rejeitada e nada colaborava para melhorar as coisas para o seu lado. As loiras foram tão insensíveis quanto eu sou quando vejo aqueles sujeitos com feridas expostas que me impressionam, viro a cara e logo esqueço. É isso o que me dói. É isso o que precisa doer em nós, creio eu. Precisamos lutar contra esse egoísmo e essa falta de amor que de repente nos habita. Não, não estou falando pra vendermos nossos carros e dividirmos o dinheiro com os pobres. Não sou tão xarope assim! Além do mais, nem acredito que o que as pessoas mais precisem é de grana. Estou falando é de amor, de empatia, de solidariedade.

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A gente tem medo! Temos medo do mendigo da mesma forma que ele tem medo de nós. Temos medo do desconhecido, do diferente e perdemos tantas chances de aprender, de ajudar, de sermos seres melhores. Aposto que, se um cachorro de rua invadisse o mesmo bar e fosse espantado de forma grosseira, mais pessoas teriam se sensibilizado e talvez até se levantado para defendê-lo. O que é que nos faz sentir mais empatia por um animal do que por um dos nossos? O que é que nos faz ter essa necessidade de sentir que somos tão diferentes assim de uma pessoa miserável? Não me entendam mal, eu amo os animais e acho lindo que nos sensibilizamos com eles. Apenas não me vejo menos suscetível às desgraças do que qualquer outro ser humano. Ainda assim, ainda que tocada na alma, ainda que sentindo empatia, às vezes ignoro, me afasto e deixo pra lá. Vejo-me no lugar da mendiga, mas tantas vezes também ocupo o lugar da loiras. Não me sinto em posição de atirar pedras nem pra cá, nem pra lá. Sinto-me apenas convidada a refletir e aproveito para convidá-los também para esta reflexão…

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