Estou em Salvador! Terra do axé, do acarajé, do carnaval, do Olodum. Lugar de gente alto astral, com um sotaque gostoso, arretado. É minha primeira vez aqui. Cheguei ontem e, em menos de 24 horas, as histórias já se acumulam. Então vamos lá!

Vou contar do avião. Fiz um voo de Campinas ao Rio de Janeiro e depois outro mais longo, de lá até aqui. Esse segundo voo leva em média duas horas, mas pareceram dias. Eu não sou uma pessoa muito dada a conversar com estranhos, já adianto. Quer dizer, não sou nada dada a isso, detesto. Assim sendo, é claro que os estranhos adoram vir puxar papo comigo… sina!

Sentei meu traseiro na poltrona do avião e Jocimar já veio perguntar meu nome e se apresentar. Ok, ele foi educado e eu respondi. Em seguida, Jocimar pega um evangelho grande e, com um sorrisinho nos lábios me lança a pergunta: “Bruna, você gosta de ler?”. “Gosto de ler”, afirmei com um leve toque de antipatia. “Você se importa se eu ler um versículo da Bíblia pra você?”. “Sim, me importo”, pensei, mas não disse. Então ele começou a leitura. E assim foi. Ele leu quase a Bíblia inteira e fazia eu ler também. Me lançava perguntas e, antes que eu as respondesse, já abria na página da Bíblia onde estava o versículo que, segundo ele, respondia tudo. Jocimar tem memorizadas as páginas da Bíblia e seus conteúdos, mesmo não sabendo ler tão bem assim e se confundindo em várias passagens. Nessas horas, eu o ajudava. Por exemplo, quando ele não conseguia distinguir “esta” de “está” e aí as frases não faziam sentido algum.

Fingi ser religiosa também para ver se ele abortava a missão de me converter. Em vão. Usei então meus neurônios para, a partir dos trechos bíblicos, mudar o rumo da conversa e trazê-la para episódios da nossa vida, como vida profissional, esportes que se pratica, instrumentos musicais que se toca, viagens. Mas Jocimar é homem de Deus e a isso se dedica integralmente. Trabalha como missionário, só viaja para eventos da igreja, não toca nada, só prega e não sabe falar de outra coisa. Em alguns momentos ele me ouvia apenas, eu falava dos assuntos mais variados e distantes do que ele queria (religião), mas aí eu perguntava: “e você Jocimar?” e ele me lia mais um versículo. Cansativo. O mais cansativo é que ele interpretava cada frase, mas as frases já eram óbvias e ele sempre punha um tom de revelação ao traduzi-la. Por exemplo, quando falava na “água do Espírito Santo”, para mim, já era evidente que estava falando do batismo. Jocimar me achou uma menina muito inteligente!

O voo foi terrível, passamos por muitas turbulências. O avião tremia demais e eu brincava: “reza aí, Jocimar!”. Ele ria, já estávamos brothers! Falei pra ele que eu quero sim ir pro paraíso, que quero ver Deus, mas não agora! Jocimar disse que não existe a morte, pois a alma é eterna. Se é ou se não é, não sei, mas assumo que estou bem feliz pela minha alma ainda estar aqui nesse plano.

Ele também cantou dois hinos para mim, quis me vender uns livros e tentou me convencer de todo jeito a conhecer a livraria da igreja. Eu disse que tentaria ir, mas não tentarei. Enquanto ele lia, cantava e falava, passou pela minha cabeça pensamentos do tipo “jura que isso está acontecendo?”, “chega Jocimar” ou “acredita no amor de Deus, Jocimar? Então me deixa em paz pelo amor de Deus”. Mas eu não falei nada. Eu estava com sono e com dor de cabeça, mas deixei ele falar e falar e falar do Senhor. Deixei ele cantar e ainda elogiei, apesar de ele ser um péssimo cantor, como podem imaginar, eu disse que a música era bonita, animada. Concordei com todas as passagens bíblicas, mesmo com as que ele leu errado e eu não entendi. Invoquei o senhor umas 4 vezes em voz alta no avião, junto com Jocimar, conforme ele pediu: “Senhor Jesus! Senhor Jesus!”.  Li alguns versículos, conforme sua solicitação e dei bastante atenção a ele. Foi bom. Apesar de eu geralmente achar esse tipo de coisa uma tremenda chatice, eu sei que isso é também um pouco de intolerância da minha parte. Jocimar só queria me fazer bem à sua maneira. Na vida dele a religião foi a salvação e agora dedica-se inteiramente a transmitir isso adiante. Por mais que eu não concorde com muitas coisas, posso ouvir, né? A gente escuta tanta besteira da boca de tanta gente mal intencionada, por que não dar atenção a alguém que, apesar dos pesares, tem boas intenções?

Sei lá. Eu não tinha grandes coisas para fazer mesmo durante aquele voo e escolhi exercitar minha paciência ao invés do meu egoísmo.

Jocimar então me contou um pouco sobre quem é, seu passado, sua busca por Deus e como as coisas mudaram para melhor em sua vida desde que se tornou religioso. Com pesar, ele revelou que atingiu o fundo do poço quando acumulou uma dívida de R$1700,00 e não via mais saída para sua condição. Ele nunca pensou que sairia da Bahia a viagem, talvez nem almejasse isso. Hoje, Jocimar atravessa o Brasil pregando e está absolutamente orgulhoso de si por ter conseguido contratar uma linha pós-paga de celular e pagá-la em dia, “graças a Deus”. Jocimar não sabe, mas depois de tanta leitura, cantoria e pregação, o que realmente tocou minha alma e meu coração foram esses pequenos detalhes de sua vida. Isso sim me põe pra pensar e me faz admirá-lo. Isso me faz aprender a ser mais grata pelo o que tenho e rever meus valores. Não adianta sair de casa se não quiser conhecer nada novo. Para que abrir as portas se não quer deixar nada entrar?

Abrir-se para o mundo, para as pessoas do mundo. Buscar conhecer não só lugares, mas também pessoas, culturas, histórias. Para mim, se não tiver isso, não está completa a viagem. Então vamos trocar mais, ouvir mais, julgar menos, ser menos egoístas e egocêntricos e, assim, aprenderemos as lições mais belas que o mundo tem para nos oferecer.

Boa viagem!!!

Pagando mico no sex shop!

10 Leis gringas que você não vai acreditar que existam – mas existem!

Texto originalmente escrito por Bruna Mazzer em 08/09/2013.