A verdade é que eu não queria fazer intercâmbio. Fui por insistência da minha mãe. Ela queria que eu ficasse um semestre, mas só aceitei ficar 3 meses inicialmente. Eu estava numa fase legal aqui no Brasil. Tinha meus amigos, curtia minha rotina, não gostava de estudar inglês e não fazia a menor ideia do que me aguardava no Canadá. Fui bem contrariada.

Cheguei lá e as coisas não foram fáceis. Diferente de muitas pessoas, eu não sofri tanto por saudade da família. Essa parte foi até tranquila, mas os perrengues sempre vêm, de um jeito ou de outro.  Às vezes eu chorava sozinha no quarto, simplesmente porque queria conversar com alguém, fazer amizades e trocar segredos, histórias, conselhos… mas eu não sabia me comunicar no idioma. Foi terrível! Eu me esforçava, mas era exaustivo. Imagine ter que ficar pensando em cada sílaba antes de dizê-la, pensar em algo e não conseguir colocar em palavras. Eu me sentia idiota por levar 5 minutos para formular uma frase elementar, lidava só com pessoas que não tinham nenhuma intimidade comigo, era constantemente incompreendida…  Pois é, aprender uma segunda língua é importante, mas também é difícil.

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10 dicas preciosas para potencializar seu intercâmbio

Quando eu conhecia alguém legal e começava a criar liberdade, amizade, o curso da pessoa chegava ao fim e ela ia embora para o seu país. Intercâmbio tem dessas.. no fim das contas, você até conhece uma porrada de gente bacana, mas todo mundo está só de passagem naquela cidade e também na sua vida. Isso pode parecer lógico, mas não deixa de ser cruel.

O sentimento de solidão cresce tanto que você aprende na marra a aceitar a si mesmo como sua melhor companhia. 

Ainda por cima, caí na casa de uma família estranha. Eles eram bem intencionados e foram bacanas comigo em várias ocasiões, devo ser justa aqui. E eu também tenho meus defeitos, claro, mas até hoje me questiono se foi uma boa ideia ter ido parar numa casa de indianos no Canadá. Além de lidar com os contrastes entre as culturas brasileira e canadense, somei mais uma nessa equação, a cultura indiana. Sinceramente, nem sei até que ponto os choques que vivi naquela casa tinham origens na cultura deles ou eram simplesmente doidices daquela família específica. Como já falei sobre isso em detalhes em outro texto, não vou ser repetitiva. Quem quiser saber, clique aqui.

Eu descobri que os chocolates canadenses são infinitamente mais gostosos e, como se não bastasse, caí de boca naquelas pizzas baratinhas vendidas em pedaços gigantes. Parecia ser tudo ótimo, até minhas calças não fecharem mais. Engordei uns 8 quilos em pouco tempo e nem preciso dizer que isso não me deixou nada feliz, né?

Mas eu arrumei um namorado e estava nas nuvens. Ele aparentemente não se importava com meus quilos a mais e meu problema com o visual estaria superado se poucas semanas depois eu não tivesse contraído catapora. Sim, ca-ta-po-ra! Aquela doença que todo mundo tem quando é criança e que eu não tive. Fui ter bem lá no Canadá, adulta, fazendo intercâmbio e no começo de um namoro. Para quem não sabe, quando você pega catapora depois de adulto, os sintomas são muito piores. A minha doença foi extremamente agressiva, fiquei horrorosa, com berebas sem fim. Eu amarrava uma bandana no rosto para cobrir toda a área abaixo dos olhos, pois eu caía no choro sempre que me via desfigurada no espelho. Ah, e eu cheirava mal também, pois a pomada para as feridas tinha um cheiro desagradável.

Entrevista com uma intercambista na Irlanda – Clique aqui!

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Como é viver em Toronto? – Entrevista com Junia

A escola era longe de casa e nos primeiros dias me perdi algumas vezes, peguei ônibus errado, passei apuro tentando pedir orientações para estranhos e não entendendo nada do que me explicavam. Uma vez, fomos atacados por uma mendiga que queria roubar o cigarro de um dos meus amigos. Foi uma situação chocante! Muitos dos moradores de rua em Vancouver são doentes mentais e, apesar de geralmente não serem violentos, seus comportamentos podem ser imprevisíveis. O que mais me chocou, na verdade, foi a reação de um integrante do nosso grupo, que partiu pra cima da doida com toda a força. Apesar do susto que tomamos, lembro que naquele contexto eu e mais alguns amigos achamos desnecessária a reação violenta. Felizmente, ninguém se machucou.

Realmente foram várias as situações traumáticas que vivi nessa experiência do intercâmbio. E, levando isso em conta, afirmo com toda a certeza: faria tudo de novo mil vezes! Você pode ter se espantado com os perrengues que contei e, se isso aconteceu, te dou razão. É fato que se lançar sozinho no mundo envolve riscos e tem um tremendo potencial de te expor a situações perturbadoras. Mesmo assim, minha conclusão é a de que faria tudo de novo. E digo isso por um único motivo: VALE A PENA!

Absolutamente tudo nessa vida tem pontos positivos e negativos. Ao evitar a parte negativa de uma experiência, você também está se privando de todos os benefícios que ela pode te trazer. Ficar eternamente na sua zona de conforto é mais seguro, por um lado, mas jamais irá te proporcionar o crescimento e amadurecimento que você pode alcançar se arriscando numa aventura de intercâmbio. E digo mais: nunca é tarde! Esqueça esse discurso babaca de que você está velho para viver a sua vida. Os fracassados adoram justificar sua infelicidade dizendo que é cedo ou tarde demais para tomar as rédeas da própria vida e se realizar. Não caia nessa! Vá viver. É sempre tempo de aprender e de ser feliz!

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