Precisei passar por uma série de exames médicos aqui na Irlanda. Como não se tratava de uma emergência, e sim de uma necessidade burocrática, o jeito foi recorrer a um hospital particular em Dublin. E foi então, em um renomado hospital irlandês, que deixei suados €345 para uns simples exames rotineiros. Com todo esse investimento, pobre que sou, esperava um tratamento de princesa, confesso. Mas, a coisa não foi bem assim.

A verdade é que eu já tive algumas experiências em hospitais europeus e nunca achei aquela maravilha. Geralmente, mal dão atenção à situação e só te mandam tomar paracetamol. É bem ridículo. Lembro-me de uma vez, em Londres, quando machuquei meu dedo e achei que tivesse quebrado. Talvez eu tenha mesmo quebrado. O fato é que, após vários dias de inchaço e muita dor, fui ao médico pedir um raio-x. Ele me recomendou paracetamol. Eu insisti que parecia uma fratura e doía como tal, portanto eu queria um raio-x, mas ninguém me deu nem mesmo a opção de nada além de paracetamol. Essa é a minha história. As de muitas outras pessoas que conheço em hospitais mundo afora têm um desfecho idêntico: paracetamol para tudo.

Porém, nesse caso mais recente, a situação era outra, eu estava finalmente em uma clínica particular. No Brasil, o tratamento também muda muito entre atendimentos públicos e particulares. Logo, minhas expectativas tinham embasamento. Cheguei então em um hospital bem localizado no centro de Dublin, um prédio com uma sala de espera bonitona, tinha até uma escultura ali para ser admirada. Fui até o balcão de informações e disseram que meus exames eram no quarto andar. Foi aí que conheci o elevador mais demorado da história, mas deixe isso para lá.

Finalmente no meu andar, alguém acenou de uma salinha espremida, era ali que eu me apresentava. Dei meu nome e disseram para eu me sentar em tal lugar e que me chamariam em seguida. Me deram também um frasco para eu urinar dentro e indicaram o banheiro. Ninguém me deu aquelas orientações que costumam dar no Brasil, como limpar a vagina primeiro com gaze umedecida e jogar fora o primeiro jato do xixi. Aliás, nem me disseram que eu teria que fazer exame de urina… e eu tinha esvaziado a bexiga logo antes de chegar ao hospital. Sorte a minha que eu costumo beber bastante água ao longo do dia.

Não demorou para a médica me chamar. E também não demorou nada para ela me dispensar. Sua pressa era nítida. Sua fala aceleradíssima era quase incompreensível. Sabe quando temos aquela sensação de estarmos atrapalhando alguém pois a pessoa está visivelmente interessada em acabar logo o papo contigo? Pois é, foi bem assim. O único detalhe é que eu tinha viajado 3h de ônibus para chegar a Dublin, pago €345 por aquele atendimento e viajaria mais 3h para voltar.

Enfim, ela deu aquela examinada bem básica, viu que eu não tinha frieiras, conferiu meus reflexos e fez perguntas sobre histórico de doenças minhas e da minha família. As próximas etapas envolviam exames de sangue e raio-x do pulmão. Esse último, em especial, me assustava. Isso porque eu estava a aproximadamente 2 meses com tosse e temia não ter o resultado necessário. Comentei isso com a médica e perguntei se ela achava melhor eu remarcar esse exame específico. Ela não me encorajou a isso e apenas respondeu “let’s hope your exam is ok” (vamos esperar que seu exame seja ok). Vontade de responder: “sim, com certeza espero que dê certo de primeira, porque pagar esse exame de novo vai ser foda”!

Voltei à salinha de espera (bem menos interessante do que a do térreo) e aguardei até que a enfermeira me chamasse para coletar as amostras de sangue. Ela foi ótima! Achou a veia de primeira e não deixou nem uma marquinha. Foi simpática também. Eu, ainda tensa com a possibilidade de dar algum problema no meu raio-x, contei também para ela da minha tosse. Foi aí que ela me respondeu com um sorrisinho maroto: “bem vinda à Irlanda”!

É, de fato, desde que cheguei aqui, a minha saúde não anda lá essas coisas. Saber que isso é algo comum não me anima muito, mas explica um pouco a situação.

Enfim, chegou a hora do tal raio-x. Me deram um avental e me direcionaram para o trocador, tipo aqueles de loja. Não falaram nada e eu o vesti com a abertura para frente, igual ao do ginecologista. No fim das contas, perguntei pro enfermeiro e ele disse que a abertura deveria ser para trás, mas nem me deu a chance de me trocar novamente. Na verdade, tanto faz. Mostrar a bunda no hospital não é nada glamouroso também. A abertura na frente foi provavelmente melhor, pois eu consegui segurar o avental bem fechadinho e ninguém viu nada. Se fosse atrás, talvez a coisa fosse pior. A única coisa realmente curiosa disso tudo é a falta de orientação em todos os momentos. Fazer o que?

Depois desse exame, que também foi bem rápido, me mandaram embora sem falar nada. Feedback zero. Achei estranho isso. Nenhum comentário, nenhuma informação sobre quando terei os resultados, nada. Voltei àquela salinha do início e perguntei quando eu receberia os resultados. A secretária se limitou a dizer que, se houvesse algo errado nos exames, alguém me telefonaria. Nem QUANDO me ligariam ela disse. Me senti bem perdida nesse contexto.

Passou uma semana, nada. Duas semanas, nada. Aí eu liguei lá e me falaram que estava tudo certo, que repassaram os resultados pro destino que eu precisava enviar e só. Eu nunca recebi os tais exames e provavelmente nunca terei acesso a eles. Que coisa, né? No fim das contas, acredito que tudo tenha tido um bom desfecho, mas é intrigante lidar com certas situações que diferem tanto das nossas experiências prévias. Mas é isso, “vivendo e aprendendo”…

 

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