Dias de TPM não são de todo mal. Eles às vezes servem para nos ajudar a expressar com clareza aquelas coisas que há tempos estão entaladas na garganta. Hoje, no auge da minha TPM, vim aqui desabafar que não suporto mais a reação da maioria das pessoas aqui da Europa quando conto que sou brasileira.

Para quem não sabe, moro atualmente em Limerick, na Irlanda. Sim, aqui o clima é uma merda na maior parte do tempo. Chove pra caramba, venta, as temperaturas ficam em média entre 5 e 14ºC o ano todo… e sem sol. Não é impossível, dependendo da época do ano, ficarmos semanas sem ver um raio de sol. E, sim, é um porre. Na primavera e no verão as coisas melhoram um pouco, mas “pasmem”: as condições climáticas nunca ficam igual um verão em Salvador. “Ah, vá!”

Já estou aqui a alguns meses e, no começo, eu levava numa boa a reação dos gringos quando descobriam que eu era brasileira. Achava até engraçadinho eles terem uma aparente visão tão positiva do nosso país. Porém, depois de incansáveis e não mais inovadoras reações idênticas, já me deu no saco. Verdade seja dita.

Logo que verbalizo minha nacionalidade vem aquela cara de “ué”, com sobrancelhas arqueadas e um ponto de interrogação luminoso na testa. Em seguida, a pessoa franze as mesmas sobrancelhas que arqueou e cerra levemente os olhos. A boca é puxada para um dos cantos e a cabeça se move sutilmente de um lado ao outro, manifestando de forma clichê a confusão mental. Aí vem a sarcástica perguntinha: “Nossa, e o que você esta fazendo aqui?”.

Notem, essa pergunta específica não é uma curiosidade genuína sobre a minha vida. Ela vem acompanhada do eterno complemento: “lá vocês tem tanto sol e aqui o clima é tão ruim”. E a pessoa para por aí, não diz mais nada e nem desvia o olhar de mim. Ela está realmente esperando minha reação, minha brilhante e completamente inovadora resposta, como se fosse tão complicado passar pela cabeça dela qualquer motivo pelo qual eu teria deixado para trás o “mais que maravilhoso” país tropical. Aí eu sorrio, com aquela cara de bunda clássica, respiro fundo, penso com pesar se vou mesmo ter que responder isso e engulo a resposta que eu realmente gostaria de dar: “Parabéns, vejo que você tem alguma noção de geografia, agora só falta aprender um pouco de história e economia”.

Está difícil manter a compostura. Nunca fui muito boa nessa coisa de ter paciência com a ignorância alheia. Sim, eu acho essa colocação dos gringos ofensiva de certa forma. Acho falta de bom senso dizer isso. Posso ser intolerante, provavelmente eu seja mesmo. Mas vejam, não espero que todos sejam super bem informados sobre o mundo ou sobre o Brasil. Na verdade, não espero que ninguém saiba nada sobre lugar nenhum. Eu mesma nem sei onde vários países ficam no mapa. Porém,

deduzir que eu viveria melhor em um lugar simplesmente pelo fato de lá fazer sol só faria algum sentido lógico se eu fosse uma planta e vivesse de fotossíntese.

A propósito, é isso que tenho respondido agora quando alguém vem com essa conversinha besta. Eu sorrio com aquela mesma cara de bunda e digo: “eu não vivo de luz solar”. A resposta geralmente não agrada, mas acho que esclarece bem a dúvida sacana. É fato que isso não tem ajudado muito no nascimento de novas amizades, mas, acreditem, essa é a reação mais sutil de todas as que passam pela minha mente quando estou, mais uma vez, nessa situação imbecil.

Juro, não estou no clima de dar aula de história, política, economia ou cultura brasileiras. Nem sou professora disso. Nem eu sei porque as coisas são tão caóticas no nosso país. Claro, tenho palpites, mas é tudo tão complexo. Só sei que, no final do mês, em qualquer país que seja, temos contas a pagar e esse é o foco. Vim para ter uma vida mais digna e só. Assim como a grande maioria dessas pessoas que me perguntam o que estou fazendo aqui. Que baita falta de empatia!

Eu não atravessei o oceano pra vir aqui chorar sobre o leite derramado. Não vim até aqui pra ficar me lamentando sobre como a vida no Brasil é desgraçada, como muitos infelizmente fazem. Eu quero mais é que as pessoas mantenham essa ideia positiva do nosso país. Quero que desejem conhecê-lo, que invistam no turismo, que vejam com seus próprios olhos e que tirem suas próprias conclusões. Sim, nosso Brasil é lindo! Sim, o céu azul é sensacional e nos recepciona de janeiro a janeiro. Temos também bundas, futebol, praia, samba e trombadinhas. Mas somos mais que isso. Muito mais que isso.

Por que eu falaria mal do Brasil? Seria uma grande injustiça. Eu pertenço a um grupo de “privilegiados”. Eu morei em casas boas, estudei em escola particular, fiz faculdade, mestrado. Eu não dependi de transporte público, tive plano de saúde particular, viajei no carnaval. Eu frequentei shoppings e restaurantes caros, tive Barbie quando criança. Eu comi picanha nos churrascos lá em casa, a minha gata come uma ração de R$100 o quilo. Eu sou sortuda. Minha vida é maravilhosa no Brasil. Consegui escapar de várias tentativas de assalto e só fui oficialmente assaltada umas 7 vezes. Duas delas com armas de fogo na minha cara. Uma vez, eu descobri o nome e o endereço do bandido que apontou uma 38 para mim e levou o celular que eu segurava. E daí? “A polícia não pode fazer nada”. Nunca. Minha avó levou cinco tiros e sangrou até morrer na frente da casa dela há mais de 20 anos e ninguém dorme na cadeia por isso. No dia que embarquei para a Irlanda, recebi no meu celular fotos da empresa do meu pai, toda arrombada, destruída. Levaram tudo. De novo. Computadores, mercadorias, até as baterias dos caminhões. Se acharam os criminosos? Quem sabe achariam se ao menos procurassem…

Bateram no meu carro outro dia lá em Campinas. Eram ciganos. Me seguiram até em casa e me amaçaram quando liguei para saber se pagariam o mecânico. Eu tive que pagar tudo, claro. Mesmo assim, eles ficaram telefonando na oficina e subornando os funcionários para arrancar informações da minha família.

Já perdi as contas de quantas vezes entraram no meu carro para roubar o estepe, a mochila, o rádio. Minha mãe já foi sequestrada. Minha tia também. Meu amigo também. Meu vizinho já foi vítima de bala perdida. Já assaltaram a casa da minha família, levaram embora tudo o que tinham e apontaram armas para aqueles que amo. Ninguém morreu naquele dia. “Que sorte! Devemos agradecer aos céus”. É sério isso?

Então, essa é só uma pequena parte da vida de um “privilegiado” no Brasil. Sim, infelizmente é verdade que a minha realidade é ainda melhor do que a de tantos outros. Que pena! Se isso é o melhor que podemos ter morando no nosso país, prefiro cair fora e foi o que fiz. Claro que eu não vou me abrir assim com qualquer um que eu cruzar nas ruas da Irlanda. Nem quero. Só não me obrigue a engolir essa conversinha furada de que a vida é melhor onde o sol brilha mais. Sejamos mais profundos que isso.. que tal?

 

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