Faz bastante tempo, mas eu ainda me lembro de muitas coisas como se fosse ontem. O intercâmbio em Vancouver marcou minha vida em muitos aspectos, por isso acredito que certas memórias se manterão claras em minha mente para sempre. São inúmeras as recordações, mas hoje vou falar sobre aquelas relacionadas à minha host family (família que me hospedou por 3 meses durante os estudos no Canadá).

A minha experiência nessa família teve pontos positivos e pontos negativos. Serei cuidadosa ao descrever os dois lados da moeda e peço que também sejam cuidadosos ao interpretarem a minha história, sem generalizações descabidas. Quero deixar claro desde já que não tenho a intenção de causar polêmicas, afinal, cada caso é um caso. Se você ficou interessado em saber mais sobre a minha convivência com uma host family indiana, corra lá, pegue seu leite quente e se aconchegue bem que lá vem textão! Estão prontos?

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Fazer intercâmbio engorda? Entenda os motivos e como evitar

Confesso uma preocupação talvez besta (e certamente inútil) ao programar meu intercâmbio: o medo de engordar com a culinária norte americana (para ler mais sobre isso, clique aqui). Digo certamente inútil porque, mesmo tendo a preocupação, engordei uns 7 ou 8 quilos nos 4 meses que fiquei no Canadá! Naquela época, eu era uma ratinha de academia e estava contente com o meu físico, então tinha receio de cair em uma casa de família que só comesse hambúrguer, pizza e macaroni cheese. Por isso, selecionei na minha ficha de inscrição do intercâmbio que eu queria cair com uma host family vegetariana.

Gente, antes de eu prosseguir, preciso suplicar que não sigam essa minha lógica, a não ser que você realmente seja vegetariano. Meu raciocínio foi muito ingênuo. Pensava comigo mesma que pessoas vegetarianas provavelmente seriam pessoas preocupadas com uma alimentação saudável, mas isso não tem absolutamente nada a ver! A pessoa pode ser carnívora e ter uma alimentação balanceada ou ser uma vegetariana junk. Hoje eu sei, antes não sabia.

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Vale a pena ir ao restaurante giratório Top of Vancouver?

Voltando à história, foi por causa dessa particularidade do vegetarianismo que fui parar numa host family de indianos imigrantes no Canadá. Nem todos os indianos são vegetarianos, mas essa é uma prática bastante comum no país, já que a vaca é considerada um animal sagrado. A minha família, por exemplo, consumia laticínios numa boa e, apesar de não comerem nenhuma carne animal, eram flexíveis comigo e compravam peito de peru para os meus lanchinhos.

Fiquei sabendo um pouco mais sobre a cultura indiana após esse tempo com meus hosts e suas duas filhas. Logo que cheguei, eles fizeram questão de me contar sobre seu país e me apresentar suas músicas, filmes e costumes. E isso já me leva ao primeiro tópico que quero abordar aqui:

Os pontos positivos da minha experiência

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  • Gostavam de falar sobre a cultura indiana e de ouvir sobre o Brasil – me mostraram suas músicas, atores e contaram sobre algumas tradições indianas, o que julguei muito interessante. Além disso, pediram também para eu apresentar as músicas brasileiras e contar sobre a vida no Brasil. Essas trocas com a host family foram fundamentais para o intercâmbio cultural.
  • Receptivos e dispostos a ajudar – se preocuparam em saber das minhas preferências e hábitos, me levaram com eles ao mercado para que eu escolhesse o que quisesse para o café da manhã. Me orientaram sobre o transporte para a escola, me forneceram um mapa da cidade e explicaram sobre pontos turísticos e de informação ao visitante na cidade.
  • Impuseram regras – sim, é um ponto positivo, pois uma boa convivência precisa de acordos e limites. Tudo foi na base do diálogo e entramos em acordos quanto a horários e outras questões referentes à dinâmica familiar, como frequência com a qual as roupas seriam lavadas, etc.
  • Tinham crianças – isso foi ótimo, pois crianças não se cansam de interagir e adoram ensinar. A convivência com elas permitiu que eu aprendesse o idioma de forma lúdica e divertida.
  • A casa era limpa – os dois adultos trabalhavam fora, mas a mãe da família estava em casa em alguns dias da semana, então se encarregava da limpeza. Tudo sempre esteve impecável. Ela também se ofereceu para lavar as minhas roupas, o que foi bastante cômodo para mim.
  • Me deixavam sair à noite – eu era menor de idade, mas já tinha o hábito de sair para as ‘baladas’ aqui no Brasil. Quando cheguei em Vancouver, não foi diferente, logo fiz amigos e quis ir para a gandaia. No começo, minha host family não gostou da ideia e quiseram a aprovação dos meus pais verdadeiros, que me autorizaram. Ainda assim, eu tinha horários e limites, mas já estava ótimo.
  • Me levaram para viajar – eles foram convidados por amigos para fazerem uma viagem em um feriado e explicaram que só iriam se eu aceitasse ir junto, pois não poderiam me deixar sozinha. Minha mãe (mãe mesmo, do Brasil) pagou minha parte das despesas e eu fui. Foi uma excelente oportunidade de conhecer uma nova cidade que eu jamais teria conhecido se não fosse com eles.

Os pontos negativos da minha experiência

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  • Eles comem com as mãos – ok, você já sabia disso, mas eu não sabia quando fui parar lá e assumo que foi meio estranho no começo. Logo me acostumei com isso e eu utilizava os talheres sem problemas. Mas é verdade que não parece uma coisa muito higiênica, principalmente quando a mãe alimentava a filha de 2 anos com a mesma mão que ela própria comia, sem limpar. Com frequência, a mesma comida ia para a boca de uma e depois para a da outra.
  • A comida era muito apimentada – muito mesmo. Eu amo pimenta, comida mexicana, tudo isso. Mas a deles é picante além da conta. Algumas vezes eu não consegui comer por conta disso.
  • Eles ficavam bravos se eu não comia tudo o que colocavam no meu prato – em primeiro lugar, eu nunca podia me servir – quem fazia meu prato eram eles. As porções eram fartas (o que é generoso da parte deles) e algumas vezes eu não conseguia comer tudo pois estava muito apimentado. Outras vezes a comida estava bem ruim, mas eu não queria dizer isso à cozinheira, por educação. Então ameaçaram não me servir mais as refeições para evitar desperdício. Foi uma situação incômoda, parecia bem sério para eles essa coisa de jogar comida fora. Realmente não penso que o dinheiro justifique o desperdício, mas, nesse caso, não achei justo ameaçarem não me dar a comida pela qual eu paguei.
  • Presenciei violência doméstica – foi muito desconfortável presenciar isso e eu não sabia como lidar. A casa era deles e eu desconhecia completamente suas noções culturais de criação de filhos. A filha de 2 anos de idade dava trabalho para se alimentar (normal, sendo que deixavam ela comer chocolate antes das refeições) e a mãe a queimava com fósforo quente como punição para cada alimento recusado. Isso acontecia quando estávamos todos sentados à mesa jantando. A menina gritava e eu achava tudo um absurdo. Conversei com uma professora da minha escola e ela me orientou a denunciar para o pessoal que cuidava dos intercambistas.
  • Eles não tomavam banho diariamente – e cheiravam mal, consequentemente. Umas duas vezes por semana eles colocavam só um pouquinho de água na banheira e ali banhavam-se todos (não juntos, mas todos: pai, mãe e filhas).
  • Eles restringiam os meus banhos – logo no primeiro dia explicaram que eu tinha direito a 1 banho diário. Ok. Combinamos que seria antes do jantar. Porém, o que eu não sabia é que essa regra era mesmo tão rigorosa e eu nunca poderia tomar 2 banhos. Uma manhã, levantei, fui direto pro chuveiro e a mulher ficou doida quando apareci na sala. Ela questionou o motivo do meu banho e se eu iria mudar meu horário a partir de então. Nossa! Eu apenas acordei com vontade de um banho, não esperava ter que dar tantas satisfações (ou ter que me desculpar). Outra coisa terrível que ninguém me disse, mas descobri na prática: eles cronometravam meu banho. Eu tinha 10 minutos e então eles desligavam a água quente. Gente, era janeiro no Canadá (leia: frio extremo) e eu não consigo tomar banho em 10 min quando lavo os cabelos. Quantas e quantas vezes eu estava com a cabeça cheia de shampoo e começava a cair aquela água congelante. Foi difícil!

As minhas conclusões

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É fato que nem tudo foi um mar de rosas. E também não era para ter sido um mar de rosas. Quando saí para essa experiência do intercâmbio, saí para conhecer um país mais desenvolvido, um povo mais educado, uma cidade mais limpa, quase sem criminalidade. Fui para aprender inglês e para aprender a me virar. Fui também para quebrar a cara, para sair da minha zona de conforto, para passar uns perrengues, porque é só assim que a gente cresce, amadurece. Então, com isso esclarecido, posso olhar para as dificuldades que passei e agradecer também por elas. Agradecer as bênçãos é fácil, é gostoso, mas não nos leva tão longe assim. Afinal, é como Henry Miller disse certa vez:

Se chamares experiências às tuas dificuldades e recordares que cada experiência te ajuda a amadurecer, vais crescer vigoroso e feliz, não importa quão adversas pareçam as circunstâncias.

Eu tive determinados problemas com minha host family indiana, mas nada me garante que eu também não teria problemas com uma host family canadense, americana ou de qualquer outra nacionalidade. Talvez seja uma boa ideia você se informar com antecedência sobre a cultura da host family com a qual pretende morar, assim evita certos choques culturais que eu vivenciei, por exemplo. Mas cuidado para não se fechar demais, não chegar com pré julgamentos, preconceitos antes mesmo de conhecer o outro.

Algum tempo depois morei em Londres e tive a chance de conviver com mais indianos e com pessoas de várias outras nacionalidades. Conheci pessoas super gentis, amigáveis, agradáveis na convivência. Outras foram desrespeitosas, inconvenientes. Porque somos assim mesmo, não importa a cor, crença, sexo ou origem. Não podemos pegar uma má experiência e generalizar, pois isso é pequeno, é errado. Somos todos humanos, todos iguais. Uns tomam mais banhos que outros, verdade seja dita, mas o valor de um ser humano não está nisso.

Eu aprendi, na convivência com pessoas tão distintas umas das outras, a conhecer mais a mim do que a elas. Aprendi a reconhecer minhas próprias limitações, a entender que tenho muito a evoluir e que também tenho meus defeitos e bloqueios, coisas com as quais não me sinto preparada para lidar (ainda), então melhor manter distância do que atirar pedras. Acredito nesse exercício de auto-conhecimento e convido a todos para praticá-lo.